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Obra-prima do cinema Lavoura arcaica não é o que se costuma 17385

Obra-prima do cinema            Lavoura arcaica

não é o que se costuma entender como simples adaptação literária, mas

uma "leitura" do livro com a imagem, não por ela. Luiz Fernando não quis

substituir o texto por equivalências visuais. Ele não admitiria que o

fluxo verbal inebriante de Raduan Nassar desaparecesse em troca de belas

e justas imagens. O texto segue junto por quase todo o filme,

reproduzindo o torvelinho em que se mesclam pensamentos e visões

objetivas. Vemos e ouvimos o livro simultaneamente. Mais que fidelidade,

este é um caso de adesão apaixonada de uma obra à outra. O filme é

capaz de reproduzir detalhes como a penugem de um rosto, um punhado de

palha flutuando no ar ou as abundantes indicações de luz contidas na

novela.            O universo panteísta de Raduan - onde gente,

animais e matérias vegetais e minerais pertencem a uma só ordem - ganhou

visualização à altura em cenas como a masturbação de André (a madeira

do corpo, o vidro dos olhos) e a captura/atração da pomba/irmã. Assim

também a natureza deixa de ser mera paisagem para se acomodar à vibração

interior das personagens: o vôo do menino para a igreja, a

tranqüilidade de uma pastoral familiar, o bosque transtornado em que

André tenta sufocar sua consciência enferma. Cada tomada está imbuída de

um sentido inequívoco, sem enfeites nem casualidades fora de controle.   

        Outra virtude desse amálgama entre duas grandes obras é a

maneira como o espectador é levado a conhecer espaços, tempos e

situações. A progressiva apreensão do quarto de pensão na cena inicial,

para citar apenas um exemplo, corresponde exatamente à maneira como

Raduan Nassar desfolha seus capítulos no livro. A descoberta não se dá a

priori, mas durante a própria vivência da cena. Luiz Fernando

não quis que a gramática antecedesse a emoção, conduta mais comum em um

cinema que busca a comunicação a qualquer custo.            O conhecimento é adquirido no tempo. As 2 h e 47 min não fazem de Lavoura arcaica

um filme longo, como afirmam alguns. Ele tem a duração que haveria de

ter, com sua circularidade, os câmbios bruscos de tempos internos, o

andamento necessário à construção das "rimas" e do páthos, a imantação poderosa sobre o espectador que se dispuser a aceitar seu ritmo enredante.   

        Da mesma forma, não é preciosista, como acusam outros, pois seu

sentido se faz na calma sucessão de imagens-síntese (a mão estendida,

os pés enterrados no chão, os olhos à espreita, a compenetração à mesa).

Nenhuma imagem é puramente bonita sem que esteja significando uma

fração importante do enredo visível ou subterrâneo.           

Este pode não ser "o melhor filme brasileiro de todos os tempos", como

já ouvi de outro crítico, mas é um sério candidato ao posto pela

integridade de sua proposta e brilho de seu resultado. A harmonia entre

interpretações, fotografia e música confirma o lugar de Luiz Fernando

Carvalho entre os maiores criadores do audiovisual contemporâneo. Sem

meias-palavras, nunca é demais repetir que Lavoura arcaica é uma obra-prima do cinema.Carlos Alberto Mattos. Jornal do Brasil, 26/10/2001 (com adaptações).A respeito da semântica e da utilização de recursos argumentativos no texto, julgue o item abaixo.O texto apresenta expressões que indicam sua natureza contra-argumentativa. Essa posição exemplifica o que é polifonia e intertextualidade discursiva, pois subjazem às idéias defendidas no artigo outras vozes e opiniões que já foram emitidas em outros textos, por diferentes críticos, discordantes ou concordantes.

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